domingo, 9 de agosto de 2009

O dia que ''encontrei'' meu pai na fila de um banco


Se me pedissem para fazer uma relação das piores coisas do mundo, ficaria mais ou menos assim: Em primeiro, sem direito a questionamentos, viria o carnaval. E em segundo, eu não hesitaria um segundo sequer para premiar as intermináveis filas de banco. Não vou começar a estender demais essa lista, porque o post seria praticamente todo tomado por coisas indejesáveis.
Mas enfim, como de rotina, todos os meses eu aguardo com extrema ansiedade a chegada de minhas faturas de cartão de crédito pelo correio. Isso porque se não chegam com uma certa antecedência, eu sou obrigado a enfrentar as desesperadoras filas para fazer o pagamento das inúmeras coisas que costumo comprar todos os meses. E todos os meses são iniciados com a promessa de que os gastos serão cortados, que dessa vez só mesmo o essencial. De nada adianta e os velhos vícios de sempre vão aparecendo no decorrer do mês. Acabo iniciando o mês da mesma forma que havia terminado: Endividado. Mas eu me sustento na máxima do Aranha Negra em um papo íntimo com o Batman: "Todo mundo é viciado em alguma coisa, você só precisa descobrir em que". No meu caso, eu já descobri faz tempo. Mas se o vício está ligado ao prazer, que seja sempre bem vindo. Não consigo pensar em outra coisa senão naqueles fantásticos envelopes que chegam frequentemente dos correios. É algo indescrítivel e que não vou tentar falar agora, porque a minha abordagem é outra.
Fila de banco é mais ou menos assim: I - Alguém sempre te conhece, II - Você sempre conhece alguém, III - Não existe ninguém legal em fila de banco. Só pessoas chatas enfrentam filas de banco. Tudo bem, é um erro generalizar, mas eu não me recordo de ter tido um bom papo em uma fila de banco, logo, o que me resta é dar o título de uma maneira geral a todos os infelizes que se submetem a enfrentar filas de banco. Mas eu quase sou obrigado a abrir uma exceção.
Fato é que um dia desses, a fatura atrasou e minha odisseia começou. Se alguma coisa boa pode ser descrita naquele dia, era o ar condicionado daquele lugar. Depois de sair de um calor de quase 40 graus, eu tive a sensação de em segundos ter transposto a linha do equador e entrado na Patagônia. De resto, nada mais de agradável pode ser acrescentado. Primeiro, quase tive que me despir porque até o botão da minha calça estava impedindo a minha entrada nas eficientes portas blindadas. Se eu estava calmo, isso bastou para alterar o meu humor. Segundo, que só de olhar a fila eu já tive um surto psicótico que quase me levou a matar quem se encontrava na minha frente. Nessas horas a gente costuma odiar os menos culpados. Mais uma máxima do capitalismo em que inconscientemente somos levados a odiar os concorrentes. Se não tivesse ninguém ali, eu seria rapidamente atendido. O ódio do banco só veio depois. Entrei no ''rabo'' daquela fila e procurei alguma coisa para me distrair. A primeira coisa que encontrei pela frente foi um relógio que possivelmente pela idade ou falta de pilhas eu notei, estava parado. Talvez fosse mais uma tentativa de manipulação. Depois de 5 horas na fila, estressado, desorientado, você olha no relógio e ''plim"! Nossa! tão rápido? Acaba não se dando conta que aquela joça está parada desde o infeliz momento que você colocou seus pés em tão inóspito lugar.
Mas como dizem, não há nada ruim que não se possa piorar. Minha consciência foi despertada com um OPA! com um certo grau de intimidade difícil de ser descrito. Me virei e me deparei com um sujeito que sinceramente, nunca havia visto na vida. Não satisfeito com o OPA! íntimo, o sujeito já emendou um papo. - Estive com seu pai ontem, que coincidência encontra-lo hoje.
Aqui cabe uma observação: Aquele sujeito acabava de me dar de presente um sujeito que procurei durante 28 anos. Pronto: Ele se mostrava muito mais detetive do que eu. Não levei mais do que 3 segundos para decidir o que fazer. Eu queria me divertir. Dei corda pro sujeito. Respondi com um sorriso e concordei que era de fato uma grande coincidência. Me perguntou a quanto tempo estava em Frutal, se já tinha terminado o meu curso de Agronomia - valha me Deus, imaginem vocês como me senti tentado a dizer coisas 'agradáveis' mas me contive e deixei rolar. Me fez perguntas sobre o meu irmão, e se minha irmã ainda estava em São Paulo. Para todas as perguntas eu respondia com um sim ou não de maneira que ele não chegasse a perguntar algo que me colocasse em contradição. O papo estava bom, e eu estava me divertindo. Me perguntou de tios, tias, primos e uma infinidade de parentes, que eu quase cheguei à conclusão que teria algum grau de parentesco com esses sujeitos. Era gente demais! Eu sempre procurava maneiras de evitar citações de nomes para não correr o risco de acabar com a brincadeira. Deu tudo certo e quando notei, a fila tinha andado bastante e já estava quase na hora de nos dirigirmos cada um ao seu caixa. Nos despedimos com um abraço e quase tive afeto por aquele sujeito desconhecido. Pedi que nos visitasse e que certamente meu pai ficaria muito feliz. Ele respondeu que sim e tomou o caixa indicado. Eu ainda fiquei dando sorrisinhos por dentro e imaginando como seria o próximo encontro dele com o meu ''pai". Como ele me confundiu, poderia facilmente em um próximo encontro, dizer que nunca o tinha visto e acabar de vez com a confusão, caso ele viesse bravo cobrar satisfações pela delonga que proporcionei. Paguei aquela fatura e ainda o vi fazer depósito de uma grande quantia de dinheiro, o que deduzi, tratava-se de um fazendeiro - essa gente simples que tem um afeto demasiado sincero por estranhos que costumam encontrar por aí. Quase me arrependi. Mas me lembrei imediatamente que estava em uma fila de banco e que nesses lugares, todas as pessoas eram horríveis. Deixei o frio e voltei a mergulhar no inferno quente do verão frutalense com a certeza de que pela primeira vez, eu senti vontade de voltar a encontra-lo. Talvez por alguns instantes eu tivesse feito parte de uma família que nas palavras daquele sujeito, parecia tão amável. Que mesmo não conhecendo mais do que ele havia me contado, era o suficiente para sentir vontade de ser o filho que em uma fila de banco teve o seu pai.

7 comentários:

Fábio disse...

Hahaha. Mano, é praticamente impossível confundir vc com outra pessoa. Alem de maluco o cara devia ter sérios problemas de vista. Nao devia tratar assim um deficiente.

Muito bom o texto, ri demais.
Continue escrevendo, camarada.

Fábio disse...

Ah, acrescente um "t" na palavra "teve", na ultima linha do texto.

Gil Nunes disse...

Kra, não parece ser tão difícil me confundir não.
No sábado fui visitar uma cliente, e ela ficou me perguntando se eu tinha algum grau de parentesco com um advogado aí que mora em Uberlândia. É muita loucura isso gente!
Eu que sempre achei ser por demais "exótico", agora sendo confundido a revelia.
O erro já foi corrigido. Mas é que eu continuo seguindo a regra de antes. Não leio o que escrevo, senão, não publico.
Vai de qualquer jeito...

Fernando disse...

hahahaha
Adorei, cara... Muito bom esse texto! Você está detonando demais, em breve publicará vários livros e será visto com várias modelos!
Beijos doidos

Fábio disse...

"exótico" = feio diferente, hahah.

OPINIÃO LEIGA disse...

Gente... você ludibriou um capial. Deveria se envergonhar!

f. disse...

muito bom! =)

é uma sorte fazer parte de uma família só na fila do banco. como dizia o dodi (da novela): quem tem família não precisa de inimigo.

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